Livro
mostra que, diante das classificações psiquiátricas, seríamos todos “doentes
mentais” e alerta para a medicalização da vida cada vez mais cedo –
transformando o ser humano da pós-modernidade numa espécie de “homo
automaticus".
Fonte: http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/noticia/2011/10/os-robos-nao-nos-invejam-mais.html
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(Eliane Brum escreve às segundas-feiras)
Os primeiros robôs da ficção
tinham um conflito: eles eram criados e programados para dar respostas
automáticas e objetivas, mas queriam algo vital e complexo. Em algum momento,
às vezes por uma falha no sistema, eles passavam a desejar. E desejar algo que
lhes era negado: subjetividade. Condenados às respostas previsíveis,
revoltavam-se contra a sua natureza de autômato. Humanizar-se, sua aspiração
maior, significava sentir angústia, tristeza, amor, raiva, alegria, dúvida e
confusão. Os robôs da modernidade queriam, portanto, a vida – com suas misérias
e contradições. Ao entrar em conflito e ao desejar, os robôs já não eram mais
robôs, mas um algo em busca de ser. Um ser humano, portanto. A partir desta
premissa, grandes clássicos da ficção científica da modernidade foram
construídos, como O Homem Bicentenário, de Isaac Asimov, que depois virou o
filme estrelado por Robin Williams.
Hoje, a pós-modernidade nos
encontra em uma situação curiosa: os humanos querem se tornar robôs. Cada vez
um número maior de pessoas se oferece em sacrifício, imolando sua vida humana,
ao deixar-se encaixar em alguma patologia vaga do manual das doenças mentais e
medicalizar o seu cotidiano para se enquadrar em uma pretensa normalidade. E
assim dar as respostas “certas”.
Para quê? Ou para quem?
Basta olhar ao redor com alguma
atenção para perceber que, nas mais variadas esferas do nosso cotidiano,
esperam-se respostas automáticas e objetivas. Seja na área amorosa e no
“desempenho” sexual, seja no comportamento profissional. Até mesmo dos bebês
espera-se que atendam às classificações previstas nos muitos compêndios sobre o
que esperar de um filhote humano a cada fase. Vivemos no mundo dos manuais de
todos os tipos, difundidos pelo mercado editorial e reproduzidos e amplificados
pela mídia, que nos ensinariam um “modo de nos usar”, com o objetivo de
alcançar um tipo específico e previamente anunciado de resultado.
Dar respostas automáticas e
objetivas diante de situações determinadas nos daria um lugar no mundo dos
“normais”. E dos bem-sucedidos, já que hoje a normalidade é determinada por um
tipo particular de sucesso. Tornar-se robô na vã tentativa de apagar a
subjetividade humana é, portanto, o que uma parte da humanidade ocidental tem
desejado para si – e se esforçado para impor aos filhos. E nisso tem a ajuda
decisiva da indústria farmacêutica, que possivelmente nunca tenha ganhado tanto
dinheiro com psicofármacos como hoje, e de um certo tipo de profissional da
medicina que manipula o “Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos
Mentais (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders - DSM-IV)” como
uma Bíblia.
A tese acima é o ponto de
partida de um livro muito interessante lançado há pouco, chamado “O Livro Negro
da Psicopatologia Contemporânea” (Via Lettera). A obra é organizada por Alfredo
Jerusalinsy e Silvia Fendrik, dois dos mais brilhantes psicanalistas da
atualidade. Mas, entre os nove autores brasileiros, nove argentinos, um
mexicano e um francês, não há apenas psicanalistas, mas também psiquiatras,
neurologistas e pesquisadores da área da neurociência. Em alguns capítulos a
linguagem é árida, e a obra se beneficiaria de uma edição mais rigorosa e
cuidada. Ainda assim, o tema é irresistível e a leitura abre muitas janelas de
reflexão. Em certa medida, o livro responde às provocações de outra obra, “O
Livro Negro da Psicanálise” (Civilização Brasileira), em que a psicanálise é
violentamente atacada como “charlatanismo”. Mas, como os autores anunciam – e
cumprem – “O Livro Negro da Psicopatologia Contemporânea” não é um mero
contra-ataque, o que serviria apenas para empobrecer um dos debates mais
relevantes da nossa época. E sim uma excelente oportunidade para discutir com
inteligência e profundidade algo que diz respeito a todos nós.
Afinal, não é o caso de
demonizar a indústria farmacêutica e a psiquiatria, como se tivessem o poder
superior de nos fazer acreditar que os sentimentos e as contradições inerentes
à condição humana constituíssem um estorvo dos quais fosse preciso se livrar
com a maior rapidez possível. Tampouco radicalizar afirmando que os
medicamentos não têm função alguma nem possam representar uma conquista em
determinadas situações. É importante assinalar: existem casos em que os
remédios são benéficos e podem ajudar a pessoa a sair de um estado de paralisia.
E há bons profissionais que são parcimoniosos e responsáveis no seu uso, em
geral por tempo determinado e com rigoroso acompanhamento, para que os efeitos
colaterais das drogas não se tornem mais nocivos do que o problema que motivou
o seu uso. Infelizmente, a realidade nos mostra que esta não tem sido a regra.
Vivemos hoje uma patologização
da vida humana e um uso indiscriminado, abusivo e cada vez mais precoce de
psicofármacos. A importância deste livro é nos ajudar a compreender o que isso
diz sobre a forma como estamos vivendo as nossas vidas, sobre a qualidade do
nosso desejo e sobre a lógica socioeconômica que tem movido nosso mundo. Para
isso, de nada valeria trocar um dogma por outro. E o livro tem o mérito de não
fazê-lo.
Se muitas vezes a ciência é
colocada no lugar de divindade e damos aos médicos o poder de determinar como
vamos viver – e como vamos morrer –, é porque nós permitimos que isso aconteça.
Porque é mais fácil transferir a um outro a responsabilidade por escolhas que
deveriam ser nossas. Ainda que seja difícil escapar das engrenagens do mundo,
especialmente quando elas enriquecem as grandes corporações, em alguma medida é
justo pensar que temos, se não liberdade, pelo menos uma paleta de
alternativas. Com todos os riscos que implica escolher contra a lógica
dominante.
Por exemplo. Quando os pais
levam uma criança que não está dando as respostas “adequadas”, seja em casa ou
na escola, a um psiquiatra ou a um pediatra ou a um neurologista ou a qualquer
outra especialidade e saem de lá com um diagnóstico e uma receita de
psicofármaco, não me parece que estão sendo enganados. Acredito que a ética do
médico pode ser questionada. Mas acredito também que os pais, assim como cada
um de nós, procuram – e encontram – o profissional que vai dizer aquilo que
gostariam de ouvir.
Hoje parece mais fácil para os
pais lidar com um diagnóstico de transtorno psiquiátrico e tentar calar seus
filhos com medicamentos do que empreender uma travessia que seguramente será
mais espinhosa, exigirá tempo e dedicação maiores e poderá levar a respostas
impossíveis de prever – quando não a novas perguntas. Da forma como hoje é
colocado, o “transtorno” mental aparece como algo que está convenientemente
fora, não tem nada a ver nem com o paciente, nem com o funcionamento da
família. Sem contar que parte dos pais adora delegar a difícil tarefa de serem
pais – e parte dos médicos adora assumir a prazerosa tarefa de ser Deus.
No capítulo intitulado
“Gotinhas e comprimidos para crianças sem história. Uma psicopatologia
pós-moderna para a infância”, Alfredo Jerusalinsky afirma: “Nos últimos trinta
anos, tem havido um deslocamento das categorias nosográficas (de descrição das
doenças) para o terreno dos dados. Não se questiona o que quer dizer este
ponto, esta palavra ou este gesto fora do lugar. (...) Na trajetória que
estamos descrevendo, foi se apagando esse esforço por ver e escutar um sujeito,
com todas as dificuldades que ele tivesse, no que tivesse para dizer, e foi-se
substituindo o dado ordenado segundo uma nosografia (descrição das doenças) que
apaga o sujeito. (...) É assim que os problemas deixam de ser problemas para
serem transtorno. É uma transformação epistemológica importante, e não uma mera
transformação terminológica. Um problema é algo para ser decifrado,
interpretado, resolvido; um transtorno é algo a ser eliminado, suprimido porque
molesta. Os nomes das categorias não são inocentes”.
E, mais adiante: “De nossa parte,
continuamos sustentando uma psicopatologia interpretativa, o que quer dizer não
nosográfica, porque não depende de dados, não depende de sintomas, mas de
deciframento. (...) Colocam na cabeça dos pais que eles não têm nada para ver
nem entender e, então, eles se comportam como se não tivessem nada para ver nem
entender; consequentemente a criança fica condenada aos automatismos mentais.
Mas, claro, para eles só existem os automatismos mentais, então o que é preciso
é trocá-los por outros”.
Quando as crianças apresentam
um comportamento não esperado (esperado por quem e para quê?), a resposta
predominante de pais, médicos e professores têm sido não escutar, mas
transformar expressões em transtornos porque o que a criança diz, por palavras,
gestos ou ações, pode transtornar os pais. E por isso precisa ser calado o mais
cedo e o mais rápido possível. Em nome desta lógica, esquece-se de que somos
seres dotados de inteligência e são poucos os que se questionam: se nunca houve
tantos diagnósticos psíquicos (e, portanto, tantas patologias), se nunca
existiram tantos medicamentos disponíveis para tratar essas doenças ou
distúrbios, por que o número de casos não para de crescer e estaríamos vivendo
verdadeiras epidemias de doenças mentais, transtornos de comportamento ou como
queiram chamar essas síndromes que têm se multiplicado como coelhos? Não seria
legítimo questionar: então, os remédios não curam?
Se aceitarmos como verdade
única que o problema se resume a uma disfunção química no nosso cérebro, alheia
ao viver, algo da ordem dos mecanismos fisiológicos, como o desarranjo de um
sistema robótico, não bastaria “corrigir” com drogas para ser “curado”? Pelas
estatísticas, tão valorizadas e difundidas pela própria indústria, sabemos que
não é isso o que está acontecendo. O número de “depressivos”, “bipolares” e
doentes do “pânico”, no mundo dos adultos, assim como o número de crianças com
“transtorno de hiperatividade e déficit de atenção” e até mesmo com “autismo”
não para de crescer. Se os remédios são tão eficazes e os diagnósticos tão
fáceis de fazer como aqueles testes que a imprensa costuma publicar, do tipo
“descubra se você é depressivo”, os doentes não deveriam diminuir em vez de
aumentar? Afinal, sempre que a ciência descobriu a cura ou uma vacina para as doenças,
iniciava-se um processo de redução no número de casos até a total erradicação.
Sobre este aspecto, os
organizadores levantam uma questão interessante na apresentação da obra: “A
ligeireza (e imprecisão) com que as pessoas são transformadas em anormais é
diretamente proporcional à velocidade com que a psicofarmacologia e a
psiquiatria contemporânea expandiram seu mercado. Não deixa de ser
surpreendente que o que foi apresentado como avanço na capacidade de curar
tenha levado a ampliar em uma progressão geométrica a quantidade de ‘doentes
mentais’”.
Para complementar essa ideia,
vale a pena ler a ótima entrevista feita pela jornalista Cláudia Collucci na
Folha de S. Paulo de 18 de outubro. Sob o sugestivo título “Estamos dando
veneno para as crianças”, Marcia Angell, professora titular do departamento de
Medicina Social da Escola Médica de Harvard, critica a indústria farmacêutica
por estimular o uso de medicamentos psiquiátricos em pacientes infantis. E
também em adultos. Angell diz: “As pessoas creem que as drogas sejam mágicas.
Para todas as doenças, para toda infelicidade, existe uma droga. A pessoa vai
ao médico e o médico diz: ‘Você precisa perder peso, fazer mais exercícios’. E
a pessoa diz: ‘Eu prefiro o remédio’. E os médicos andam tão ocupados, as
consultas são tão rápidas, que ele faz a prescrição. Os pacientes acham o
médico sério, confiável, quando ele faz isso. Pacientes têm de ser educados
para o fato de que não existem soluções mágicas para os seus problemas. Drogas
têm efeitos colaterais que, muitas vezes, são piores do que o problema de
base”.
O que vale a pena perceber é
que ninguém é normal, mesmo. Basicamente porque não há como saber o que seja
isso. O que não é razão para sermos todos tratados como portadores de algum
transtorno mental desde bebê. Como afirmam Alfredo Jerusalinsky e Silvia
Fendrik: “A generalização e multiplicação dos signos psicopatológicos preparam
o território para a expansão industrial na fabricação de psicofármacos, que
passam a ser consumidos em massa. Nasce assim uma hipocondria dos estados de
humor, dos afetos, das dúvidas, dos desejos, das tristezas. As variações
mentais e as singularidades pessoais são comparadas com uma média estatística
que cria uma medida comum inexistente na realidade. Esse ‘boneco padrão’
subjacente descreve uma ‘normalidade’ definida pela uniformidade. Comparados
com ele, viramos todos ‘doentes mentais’”.
A tentativa de classificar toda
singularidade como anormalidade pode se tornar uma grande comédia. Em 1992, o
psicólogo clínico britânico Richard Bentall propôs em um artigo para o “Journal
of Medical Ethics” o seguinte: classificar a felicidade como distúrbio
psiquiátrico e incluí-la no manual dos transtornos mentais (DSM-IV). Richard
escreveu com grande rigor acadêmico e citou 32 artigos de importantes revistas
científicas britânicas. Passo a passo, ele prova que a felicidade é um estado
estatisticamente anormal, acompanhado por sintomas como disfunção cognitiva e
marcado por uma percepção distorcida da realidade.
Os pacientes afetados por esse
distúrbio apresentam um quadro de euforia, sem contrapartida real, podendo
resultar em desvantagem adaptativa. Sem contar que há uma relação significativa
da felicidade com obesidade e ingestão de álcool. Richard propõe que os
psiquiatras busquem tratamento para a felicidade e sugere até um nome para
classificá-la como doença mental: “major affective, pleasant type”. A história
é deliciosa porque Richard percebeu que, para evidenciar o absurdo que estava –
e continua – sendo praticado, só mesmo assumindo o discurso psiquiátrico, mas
pelo avesso. Se a tristeza é tratada como uma anomalia que pode e precisa ser
curada, por que não a felicidade?
Ao olhar hoje para nós, com
seus olhos artificiais, com o que um robô se depararia? Acho que uma das
respostas pode ser encontrada em “Wall-e”, a bela animação da Pixar. Aliás,
fica uma dica das mais agradáveis: pegue na locadora estes dois filmes sobre
robôs, mas de épocas diferentes, “O Homem Bicentenário”, inspirado no texto de
Isaac Asimov publicado na década de 70, e “Wall-e”, que recebeu o Oscar de
melhor animação em 2009. “Wall-e” é um filme brilhante, “O Homem Bicentenário”
deixa a desejar, mas juntos podem ser um ponto de partida interessante para
pensar – sozinho, com os amigos ou com a família – sobre as mudanças ocorridas
nas últimas décadas na forma de enxergar a nós mesmos.
“O Livro Negro da
Psicopatologia Contemporânea” afirma que o ideal pós-moderno é o pensamento
simplificado: memória reduzida + seleção de respostas corretas. Dizem Alfredo e
Silvia: “Enquanto a cibernética eletrônica procura engenhosamente capacitar
seus robôs para responder a questões cada vez mais aleatórias, e até para
formular perguntas, nós humanos somos levados a uma ‘padronização’ do controle
da ‘mente’. Amparados em padrões diagnósticos cada vez mais amplos – depressão,
TOC, Asperger etc –, incluem-se os mais heterogêneos conjuntos de sintomas
justificando deste modo a utilização dos mesmos psicofármacos. (...) Em um
mundo em que o sujeito se desvanece ao redor da promessa de ter respostas para
tudo, curiosamente surgem e proliferam as ‘patologias’ (...). O modelo
atualmente proposto substitui o saber pela informação, a falta pela completude,
a busca pela resposta ‘já’, a singularidade da diferença pela repetição do
idêntico, o enigma do passado e do futuro pela pretensa certeza garantida do
presente. O ideal seria que adaptássemos nossa experiência àquilo que, com toda
a propriedade, poderia se chamar: Homo Automaticus?”.
Um dos traços marcantes da
modernidade é a descoberta de que nossa consciência é apenas uma pequena parte
do que somos. Há um vasto mundo inconsciente ou pré-consciente que nos
constitui. Assim, não deixa de ser curioso, ainda que bastante lógico, que a
partir da descoberta transformadora de que a consciência nem nos governa nem é
nosso “eu” total, de repente desejamos nos robotizar para escapar da aventura
ao mesmo tempo extraordinária e assustadora que é criar uma vida. Será que o
melhor acordo que podemos fazer com nós mesmos é engolir pilulinhas na tentativa
de manter um ilusório controle sobre nossa mente e sobre o outro, quando se
trata de nossos filhos? Pílula para comer ou para não comer, pílula para dormir
ou para ficar acordado, pílula para ter desejo sexual ou para diminuir o desejo
sexual, pílula para se acalmar ou para estimular... Como se a condição humana,
com todas as suas ambiguidades, pudesse ser reduzida ao mero ajuste de um
corpo-máquina.
O crescimento dos distúrbios
mentais na mesma proporção das supostas pílulas da felicidade e de outros “ajustadores”
da mente mostra que há algo que não fecha nessa conta. Enquanto puder, a
indústria farmacêutica vai continuar ganhando com a transformação de qualquer
sofrimento em patologia e com a consequente medicalização da vida. E, quando (e
se) algo mudar, vão ganhar com outra coisa. Mas nós, nós e nossos filhos, só
temos uma vida para viver da forma mais ampla e rica possível. Convém não
perdê-la na tentativa de anular a singularidade que nos pertence.
Como dizem Alfredo Jerusalinsky
e Silvia Fendrik, os organizadores de “O Livro Negro da Psicopatologia
Contemporânea”: “Os robôs não precisam se preocupar, já que hoje em dia parecem
ser eles os que encarnam o ideal: sem desejos, sem envelhecimento, sem falhas,
com automatismos garantidos para cada situação específica, sem vacilação, tudo
positivado em um pensamento ‘positivo’. No entanto, devemos sublinhar que,
enquanto aqueles robôs dos anos 1930 representavam em sua rebelião os ideais de
um modernismo romântico, os atuais ‘transtornos’, sob suas formas toxicomaníacas,
bulímicas, anoréxicas, de padrões sociais de sucesso ou de quimiopsiquiatria,
representam a obediência recoberta por um falso manto de liberdade”.
Por mais que tudo nos empurre
para a patologização e a medicalização da vida na busca de uma normalidade
inexistente, acredito que há algo do humano que resiste, que não é calado e que
grita, ainda que dopado. É por isso que a conta não fecha. Porque, por mais que
se divulgue a crença – e é neste momento que a ciência se coloca no lugar da
religião – de que é possível controlar o sofrimento e garantir a felicidade, a
humanidade que mora em nós desmascara essa ilusão dia após dia. E por isso é
preciso encontrar uma nova panaceia para dar conta de cada novo “transtorno”.
Se a dor é inerente à vida, ela
necessariamente não é algo ruim, mas algo que nos impele a buscar um jeito de
viver que faça mais sentido para nós. Se a confusão pode ser infernal no
cotidiano, com todas as dúvidas que ela traz, não há como achar algo ou a si
mesmo sem ela, para em seguida nos perdermos de novo, porque é assim que
alcançamos outros mundos também dentro de nós. A angústia não deve ser
silenciada, mas ouvida, porque está nos dizendo algo que nos diz respeito. E,
se você for pai ou mãe, é sua a responsabilidade de lidar com as questões
trazidas por seus filhos, sejam em forma de palavras, de gestos ou de
comportamento. É sua – e não dos médicos – desde que você escolheu ser pai ou
mãe – e até que suas crianças progressivamente assumam a responsabilidade pelos
rumos da própria vida. E, acredite, a melhor forma de lidar ainda começa por
escutar. Escutar de verdade.
É na incompletude, que não se
fecha com nenhuma pílula, que talvez possamos, individual e coletivamente,
empreender uma busca sem nenhuma garantia, como são todas as buscas, que nos
leve a criar uma vida que ainda possa fazer um robô aspirar a uma existência
humana.
Fonte: http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/noticia/2011/10/os-robos-nao-nos-invejam-mais.html - (Eliane
Brum escreve às segundas-feiras)
Jornalista, escritora e documentarista. Ganhou
mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem.
É autora de um romance - Uma Duas (LeYa) - e de três livros
de reportagem: Coluna Prestes - O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que
Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo).
E codiretora de dois documentários: Uma História Severina e
Gretchen Filme Estrada.
elianebrum@uol.com.br
elianebrum @brumelianebrum

